Roger Machado reflete sobre ‘hate’ do ‘tatiquês’, política e a luta por mais técnicos negros no futebol brasileiro

Críticas pelo ‘tatiquês’ e a busca por clareza

Roger Machado, atual técnico do São Paulo, reconhece que as críticas sobre o uso de termos técnicos em suas entrevistas, o chamado ‘tatiquês’, o acompanham desde o início de sua carreira. Termos como ‘regra do gatilho da bola rodada para trás’ e ‘cruzamento de quina’ frequentemente ganham mais destaque do que o desempenho em campo. Em entrevista à ESPN, Roger admitiu ter responsabilidade caso o torcedor não compreenda suas colocações, ressaltando a necessidade de adaptação na comunicação.

“Se o torcedor não compreende, cabe ao treinador se adaptar. E essa é a minha culpa naquele momento ali”, declarou, explicando que o vocabulário técnico é fruto de leituras e estudos aprofundados sobre o esporte. Ele admitiu que, imerso no jogo, às vezes esquece de ajustar a linguagem para se conectar melhor com o público, que busca mais emoção do que explicações detalhadas.

Política, diversidade e o legado pós-7 a 1

Além de sua abordagem tática, Roger Machado também se destaca por falar abertamente sobre política e por ocupar um posto raro no futebol brasileiro: o de técnico negro na Série A, ao lado de Jair Ventura. Ele vê a discussão sobre a representatividade negra no futebol como um debate que precisa ser ampliado, contrastando o prestígio social conferido aos ex-atletas com a resistência enfrentada por aqueles que almejam posições de gestão.

Roger também comentou sobre o fenômeno da renovação de técnicos após a Copa do Mundo de 2014, quando muitos profissionais brasileiros foram considerados ultrapassados. Ele se incluiu nesse movimento de busca por novas ideias e abordagens, assim como outros treinadores jovens e estudiosos que surgiram na época.

Técnicos estrangeiros e a essência do treinador brasileiro

Abordando a entrada em massa de técnicos estrangeiros, especialmente portugueses, a partir de 2019, Roger Machado defendeu o respeito aos profissionais, mas ressaltou que os mesmos livros e estudos que embasam o conhecimento deles também são acessados por treinadores brasileiros. Ele negou que use termos técnicos para demonstrar superioridade, explicando que o vocabulário é uma absorção natural do que é lido e estudado.

“A comunicação é muito mais o que o outro entende do que o que a gente está dizendo. Não quero também perder a minha essência”, afirmou, defendendo que a busca por conhecimento não deve ser vista como uma falha. Ele se disse ciente da necessidade de se policiar na comunicação, mas que a crítica deve ser construtiva.

A sub-representação de técnicos negros: um reflexo social

Sobre o baixo número de técnicos negros no futebol brasileiro, Roger Machado considera fundamental um debate amplo. Ele compara a proporcionalidade de atletas negros em campo, que se aproxima da representatividade da população brasileira, com a drástica diminuição nos cargos de gestão e comando técnico. Ele citou a si mesmo, Jair Ventura, Cristóvão Borges e Marcão como exemplos da raridade da situação.

“O futebol acaba cristalizando alguns aspectos que somos socialmente, com todas as nossas qualidades e todas as questões que temos a resolver”, disse. Roger defende a criação de alternativas para ampliar o acesso de indivíduos negros a essas posições, combatendo a exclusividade de vagas para determinados grupos. Ele se coloca a favor de entender as causas e de criar espaços para que mais profissionais negros possam acessar e permanecer em posições de destaque no futebol, um cenário que, segundo ele, reflete a sociedade brasileira como um todo.

Fonte: www.espn.com.br

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